Minha estreia na Hot Hot pode se resumir em duas palavras antagônicas: frustração e excitação. Já vinha querendo visitar a casa há algum tempo, e ao saber que o dinamarquês Anders Trentemoller daria as caras por lá, percebi que seria a oportunidade perfeita.
Devo exaltar algumas qualidades da casa antes mesmo de chegar lá. A excelente decoração interna, concebida e realizada pelos designers/arquitetos Guto Requena e Alexandre Nino, já vinha chamando atenção nas diversas fotos e vídeos espalhados pela internet. O aclamado sistema de som Funktion-One, eleito sabe-se lá por quem como o melhor soundsystem do mundo, também prometia qualidade e nitidez sonora como nunca antes ouvida. E a inédita opção de comprar seu ingresso antecipadamente surgia como uma forma de evitar filas e garantir sua entrada na casa.
Hermes Sant’anna, promoter do projeto Check-in Garage, realizado todas as sextas-feiras, foi extremamente atencioso desde que contatei ele. Respondeu às minhas diversas e pentelhas dúvidas e tratou imprensa como se deve, com cordialidade e atenção. Imagino que trate os outros veículos da mesma forma. Ponto pra ele, ponto pra casa.
Eis que chegou sexta-feira passada, 8 de janeiro. Convidei alguns amigos pra ir junto, já que não é todo dia que Trentemoller e sua franja grudada aparecem por aqui. Seguindo o conselho do próprio Hermes, já avisei a todos que comprassem seus ingressos antecipadamente, assim evitaríamos a balbúrdia da 1 da manhã. E foi aí que a frustração começou. Ao chegar na Rua Santo Antônio por volta das 0h45, uma imensa fila estava formada do lado de fora. Ok, sinal de casa cheia, ótima oportunidade de testar a organização da casa...
Problemas na entrada
Mas pelo menos neste dia, a Hot Hot revelou uma ingenuidade tremenda ao lidar com uma grande quantidade de gente. Do lado de fora, um aglomerado de pessoas tentava entrar na balada de forma totalmente desgrenhada. Um caos de clientes e seguranças se empurrando. Alguns tentavam desesperadamente controlar a pequena massa que se formava, enquanto outros apartavam os empurrões de forma gentil. Cerca de 50 pessoas empunhavam seus ingressos antecipados ao alto, dizendo “Eu já paguei, quero entrar!”. A verdade é que faltou para a Hot Hot um esquema melhor para os consumidores antecipados: não havia fila especial, não havia tratamento especial. Resultado: clientes insatisfeitíssimos e putos com a desorganização. Eu mesmo tive 3 amigos que desistiram de entrar por conta disto, mas cheguei a ver mais de 5 pessoas indo embora com seus ingressos comprados em mãos. Uma situação extremamente desagradável pra quem sai pra se divertir, facilmente resolvida com uma simples medida: uma entrada especial de livre acesso somente para quem comprou antecipado. Quem não comprou, fim da outra fila de bico calado, como é em toda balada. Um problema gravíssimo, mas que com certeza será solucionado nas próximas festas. Resolvi manter a empolgação e seguir em frente, sem deixar que este problema abalasse a noite.
E aí começa o show. O tal corredor psicodélico da entrada tomou vida na minha frente. Como era um emaranhado de gente, não parei pra ficar olhando, sob a ameaça de tomar um pedala de alguém mais apressado. Mas ali é digno de ficar um bom tempo parado observando. Ou correndo pra lá e pra cá como num túnel do tempo de LEDs. Viagens à parte, já fui logo direcionado até a entrada de fato. Ao entrar, é difícil não reparar nos imensos lustres e no clima noir de luz amarelada que envolve o lounge superior da casa. As paredes e móveis texturizados são uma beleza, um retrô chique de tons fortes e cuidadosamente escolhidos. Eu sou fã assumido de patterns, e isto significa babas escorrendo.
O sistema de comprar bebidas também é um pouco diferente. Funciona exatamente como era nos fliperamas da extinta Playland. Você carrega um cartãozinho pessoal com qualquer quantia de dinheiro e vai diretamente no bar. Comprou uma bebida, o barman já desconta do seu cartão na hora. Rápido e fácil. Isto evita filas chatas na hora de ir embora, já que você leva seu cartão junto. Quando voltar, qualquer quantia que esteja nele pode ser gasta normalmente. Uma belezinha, principalmente para a Hot Hot, já que muitos de seus lesados clientes devem ficar com seus cartões carregados de dinheiro no fundo da gaveta.
(vídeo gentilmente feito por Patrícia Lopes, uma santa que aguentou 10 minutos sem se mexer)
Tem dinamarquês na cabine! Descendo pra pista, é impossível não ficar boquiaberto com a quantidade de luzes que são arremessadas na sua cara. Entorpecência visual. Extrapolação dos sentidos. O som, maravilhosamente alto e definido, realmente fez jus à tudo que se falava sobre o tal do Funktion. Ele entra pelo ouvido, dá um role pelo cérebro e sai pelos poros em forma de danças malabarísticas. Eu, minha tchurma e meu inseparável copinho de fresh wodka já fomos nos instalando ali nas entranhas da pista, sabendo que já já o espaço ficaria concorridíssimo. Kasper Bjorke, também dinamarquês e espécie de sombra sonora de Trentemoller, já aquecia a pista com maestria. Soltou diversos hits próprios e foi crescendo o set para o momento-auge da festa. O público parecia um pouco desatento ao set, meio que dançando mais por inércia que por empolgação. Era visível que poucos ali sabiam da grandeza e genialidade de Kasper. Por mais que se esforçasse, foi difícil combater a impaciência e ansiedade (inclusive minha) de quem queria ver o franjudo Anders.
Eis que surge o próprio no palco. Não agüentei e já falei pra tchurminha que queria ir lá pra frente ver de perto. Coisa de groupie histérico mesmo. Ao final do aplaudidíssimo set do Mr. Bjorke, Trentemoller inicia sua jornada eletrônica de forma indescritível, pelo menos pra mim. Eu vinha me perguntando se o cara ia tocar o remix foda de Franz Ferdinand – No You Girls que ele fez recentemente. Eu abri meu último set gravado com esse remix, acho foda mesmo. E puta que pariu, não é que o filho da mãe resolve abrir o set dele com essa música? Uma telepatia rara! É nói Trents (Y)! Acho que não tinha um nêgo mais empolgado que eu nessa hora. Durante todo o set fica aquela sensação de “o cara realmente sabe o que tá fazendo”. Mixagens rápidas e criativas me faziam olhar praqueles 3 CDJs e mixer (sim, ele toca com CDJ) com uma certa confusão. Era dedada no CUE sem parcimônia, tudo no ritmo, tudo no tom certo, tudo no jeito. Grande parte da genialidade deste rapaz está em misturar as músicas como se estivesse brincando de compor, ali, no improviso. E além de várias músicas próprias, soltou de M.I.A. a Gui Boratto sem pensar. Trentemoller não tem muita firula: gosta de música boa e ponto, seja electro, techno ou o que for. Sou réu confesso de uma atitude extremamente fanfarrona inclusive. Escrevi Aphex Twin – Windowlicker no celular e mostrei pra ele. Na hora o cara já deu uma risadinha e três minutos depois, tava ele virando essa música, remix dele obviamente. Genial. E eu lá, pulando como um cabrito. Impossível ficar parado.
Seu set pode ser resumido em algumas poucas palavras: versátil orgasmo sonoro. Não tive nem muita paciência pra acompanhar com atenção o set da Eli Iwasa, já tinha encontrado alguns outros amigos e fiquei ali de canto batendo papo e dando risada até a hora de ir embora. Preferia que o Mau Mau tivesse entrado em seguida, mas enfim.
Em resumo, a noite iniciou com uma grande frustração de ver meus amigos indo embora e não podendo entrar, mas terminou com aquela sensação de valeu a pena ter paciência na fila. Ah sim, após a balada, comuniquei o Hermes lá de cima a situação ocorrida na entrada. De prontidão ele se dispôs a resolver a situação e reembolsar o ingresso comprado e não usado. Ótimo pós-atendimento, ponto mais uma vez pra Hot Hot. A casa se firma como uma das grandes opções paulistanas pra escutar boa música eletrônica. Minha próxima parada lá é pra ver Rex the Dog, no dia 29, também imperdível. Nos vemos lá!